Amores pé no chão mas calma, isso ainda é um filme Hollywoodiano!
O único traço de comédia romântica que vi nele foi quando a Lucy, personagem principal interpretada pela Dakota Johnson, foi apresentada no início do filme caminhando por Nova York com um look "básico" com botas de mais de R$5.000,00 e chegando, logo depois, no trabalho onde uma festinha a esperava pra comemorar o seu sucesso. Um clássico das comédias românticas. Consegui imaginar perfeitamente a Sandra Bullock, por exemplo, naquela abertura, se estivéssemos no início dos anos 2000. Bom, talvez não a Sandra Bullock porque acho que ela não tem pernas tão longas como a da Dakota mas enfim, o lado “comédia romântica” do filme para por aí.
O que vem a seguir, na verdade, é o oposto do que esse gênero vende e aqui reside o ponto mais forte do filme. "Amores Materialistas" mostra com objetividade, e muita verdade, como a busca por relacionamentos virou um transação “comercial” onde temos os pontos que fazem um “produto” ser mais ou menos valorizado além de outras discussões bem atuais e interessantes sobre o tema. Como a própria protagonista diz pelo menos umas duas vezes, "é matemático". Esquece o amor romântico, aqui é sobre colocar tudo na balança e ter o pé no chão. Não é um filme pra dar umas risadinhas e sair do cinema acreditando que a pessoa que tem todos os requisitos que você julga necessário não só existe como vai te encontrar ao acaso e vocês serão felizes para sempre.
O filme é sobre uma bolha muito específica e é muito honesto sobre isso: está falando sobre héteros, brancos, magros e minimamente bonitos. Celine Song, a diretora, nem tenta abrir o seu leque de discussão, mas, não faz isso de uma forma muito sóbria, honesta e firme ao mesmo tempo. É como se ela começasse uma conversa falando "Olha só, quero falar sobre esse assunto específico aqui, vamos conversar?". E funciona muito bem. Funciona tão bem que não nos incomoda o fato da protagonista, por boa parte do filme, julgar seu ex por ser um cara fracassado e pobretão. E isso, creio eu, é por conta justamente desse olhar observador e não julgador da diretora aliado a essa proposta de "vamos observar essa situação aqui".
A direção da Celine é tão acertada que ela escolheu escalar o Pedro Pascal para interpretar o ricaço, fisicamente perfeito, o "unicórnio" e o Chris Evans como o cara que é bonito, mas que não decolou na profissão e que vive quebrado quando o óbvio, o "natural", seria o oposto. Com essa escolha ela ajuda a convencer o espectador da virada que rola lá pelo meio do filme e ainda atesta a conclusão do final.
Agora, cá entre nós, o Pedro Pascal como um "unicórnio" até que me convenceu, mas o Chris Evans de pobretão e só com 37 anos me desceu quadrado! 😂 E na tentativa de nos convencer disso, todas aquelas cenas do apartamento que a personagem dele dividia e que tinha até camisinha usada no meio da sala ficaram forçadíssimas e super estereotipadas, inclusive pela escalação do ator que faz o amigo que divide apartamento com ele. Outra coisa que também não me convenceu muito foi a virada da Lucy quando ela descobre que a cliente dela, a Sophie, sofreu um abuso. A cena que a chefe dela conta o que aconteceu e o pós que ela chora no banheiro são boas cenas mas senti que a comoção veio de uma forma exagerada, meio do nada. Talvez se a relação das duas tivesse sido mais elaborada seria mais fácil de comprar. O fato da Lucy trabalhar como casamenteira na era dos aplicativos me levantou um questionamento mas comprei a idéia logo de cara mesmo ficando na dúvida se o filme se passava hoje em dia ou há alguns poucos anos atrás.
"Amores Materialistas" poderia ser marcante se seguisse o seu "estudo" inicial, seu ponto de vista objetivo, cru, quase pessimista e "matemático" das relações. Mas como estamos falando de um filme grande de Hollywood, algumas expectativas precisam ser atendidas e no final, quase como num passe de mágica, o que incomodava não incomoda mais, o que era um obstáculo agora é só um detalhe e tivemos aquele final que nos foi apresentado. Assim como o prólogo/epílogo do filme, uma pena.
