"Congonhas: tragédia anunciada", como manter tragédias vivas?

Estava muito curioso para ver o documentário "Congonhas: tragédia anunciada" desde que foi lançado em Abril desse ano na Netflix mas só essa semana consegui assistir. Lembrava bastante da extensa cobertura feita pela impressa em 2007 quando o vôo 3054 da TAM, após pousar, não parou na pista do aeroporto de Congonhas, se chocou com um prédio da própria companhia e 199 pessoas vieram a óbito. A curiosidade vinha principalmente da vontade de entender melhor aquela tragédia, que até hoje é a maior da aviação brasileira e que eu, então com 19 anos, num primeiro momento tive uma overdose de informações mas que, com o tempo, vi toda aquela atenção se diluindo até desaparecer.

O documentário foi dividido em três episódios muito bem estruturados separadamente. O primeiro e mais emocionante foca nas famílias que perderam filhas, esposas, mães e irmãos. É de cortar o coração e é difícil não se emocionar. Aqui somos apresentados a “personagem” mais interessante de todo o projeto: Dario Scott que perdeu a filha de 14 anos na tragédia. Ele me chamou a atenção pela imensa sensatez ao falar sobre o ocorrido mesmo com uma cicatriz de dor no seu olhar e mesmo ainda sendo tomado pela emoção e ficando com a voz embargada em diversos momentos quase 20 anos depois do ocorrido. É admirável como ele conseguiu transformar sua dor em luta.

O segundo episódio é dedicado a entender melhor o que aconteceu antes da tragédia e aqui o trabalho de pesquisa e montagem brilham. O panorama do contexto social, empresarial e político apresentado pelo roteiro e direção é realmente espetacular. Até me fez lembrar de uma viagem que fiz no segundo semestre de 2006 e que foi um caos: horas de espera, vôo cancelado, precisei dormir num hotel em Belo Horizonte, onde fiz conexão, enfim, o citado “apagão aéreo”. Como esquecer o icônico, infeliz e tragicômico "Relaxa e goza porque depois você esquece todos os transtornos!" dito por Marta Suplicy?

Depois de ver todo o documentário li muitas matérias na internet, vi videos, comentários sobre os episódios e me surpreendi com a reação das pessoas. Tanto com os comentários gerais mas principalmente por reclamarem bastante desse segundo episódio, acharam que "divagou" demais. Eu achei extremamente importante e necessário a apresentação de todo aquele panorama para entendermos como uma coisa nunca é só uma coisa. Uma coisa é uma coisa PORQUE outras coisas (muitas nesse caso) aconteceram antes.

Como não ficar admirado (digamos) com o mandamento “Nada substitui o lucro” da TAM ou a frase “A receita caça quem tem carro importado, a receita caça quem tem barco, a receita deveria caçar quem não tem! Nós temos que glorificar as pessoas bem sucedidas!” dita por Rolim Amaro, ídolo do então presidente da TAM, Marco Antonio Bologna? 

Como não refletir sobre a reação da sociedade? Toda aquela "revolta" que parecia um sintoma de febre que algumas pessoas tiveram, a necessidade de extravasar um ódio internalizado que não era mais sobre a tragédia, mas que usava a mesma para extravasar esse ódio por outras pessoas, assuntos e até causas. Nosso sangue latino esquentado que explode em determinado momento mas que na constância, no dia a dia, não está de olho ou não dá a devida atenção ao que está sendo feito para que outras tragédias não aconteçam ou outros problemas não desencadeiem em tal nível de raiva.

Impossível não pensar nisso e não admirar ainda mais o Dario Scott, o pai que perdeu a filha de 14 anos na tragédia e sua sensatez. Também não consegui deixar de fazer um paralelo com a pandemia. Sim, são tragédias de natureza completamente diferentes, e que no papel não se comparam, mas que cabe uma reflexão, uma autoreflexão e até uma autocrítica. Ah Dario! A sociedade brasileira precisa aprender muito com você!

Como não refletir sobre o espetáculo, ou circo mesmo como falam hoje na internet, que se transformou a cobertura das ramificações da tragédia na época? Imagina se em 2007 a internet e as redes sociais fossem como são hoje? Como não se surpreender com a figura da Denise de Abreu? E aqui preciso elogiar novamente o documentário por ser muito justo na abordagem com relação a ela. No segundo episódio a personagem é colocada como uma vilã com direito a entrada a lá Odete Roitman mas no terceiro episódio ouvimos seu lado da história. O machismo era (e ainda é) real, mas o despreparado, arrogância e uma pitada de exibicionismo também ficou bem explícito no documentário.

O terceiro episódio também tenta ser um episódio mais técnico e explica a questão dos manetes e do grooving por exemplo. Boas explicações e com ótimos gráficos e animações (aliás, por todo o documentário) e entendi a escolha de apenas no último episódio falar sobre o assunto já que a linha lógica do roteiro ficou muito clara e essa escolha foi bem contundente. Esse episódio me abriu uma outra categoria de "sentir muito" dentro de tanta tristeza e choque nessa história. O erro em relação a não colocar um dos manetes na posição que deveria ficar foi uma grande merda mas merda maior ainda foram os pilotos não estarem vivos pra se defenderem e ainda serem, de alguma forma, usados como bodes expiatórios. Nem lembrava que três pessoas tinham sido inocentadas e que até hoje, e provavelmente pro resto da história, não houve um fechamento oficial para uma tragédia desse porte que, de novo, levou a morte de 199 pessoas de uma vez só. 

Essa "história em aberto" é bastante emblemática e, considerando os grandes acontecimentos do pais durante esses quase 20 anos pós tragédia, propõe uma enorme reflexão pra todas as pessoas que assistam ao documentário. E esse é, acredito, o maior objetivo do filme: propor reflexão, reflexão para a mudança, não esquecimento para a não repetição, aprendizado. O estado que o memorial para as vítimas da tragédia é mostrado é bem representativo e triste. Lembro novamente do Dario Scott e sua sensatez, transformação da dor em luta e constância na luta. Dario e a força pra continuar de todas as pessoas que perderam outras pessoas amadas nessa tragédia é o melhor e o maior legado dessa tragédia até hoje.

O tom "pode acontecer de novo" do final não me agradou nem um pouco e é minha grande ressalva do documentário. Achei jogado e bem ruim mesmo, uma pena considerando a qualidade do resto. Muitas coisas mudaram e na minha pesquisa pós assistir ao documentário assisti esse video aqui do Lito Sousa, especialista em aviação brasileira, que indico bastante. O video é uma live grande mas dá pra assistir pulando e ele vai preenchendo algumas lacunas deixadas pelo documentários sobre o pós tragédia com dados interessantes, vale a pena.