Sobre 9 adaptações de "O Morro dos Ventos Uivantes"

Quero começar esse post dizendo que nunca li o livro que deu origem a esses filmes, a primeira lembrança que tenho desse universo é de muitos anos atrás quando fiquei bastante surpreso ao descobrir que Luis Buñuel, maior nome do surrealismo no cinema, tinha um filme que era uma adaptação de um tal romance inglês chamado "O Morro dos Ventos Uivantes". Vi "Escravos do Rancor" e achei bem interessante.
Posteriormente fui descobrindo outras adaptações mas com o lançamento da nova versão dirigida pela Emerald Fennell, e todas as suas polêmicas, resolvi rever algumas e ver outras.

São muitas... inúmeras adaptações! Escolhi falar dessas oito (e da mais recente) por serem, talvez, as mais conhecidas.


Depois da maratona, e considerando muitas coisas que li sobre o livro, a primeira conclusão que tenho é a de que é uma história muito difícil de se adaptar. São muitos personagens, um longo período de tempo, muitos possíveis pontos de vista e muitos temas a serem explorados.

A segunda é a que, ao contrário do que vendeu a divulgação do filme de Fennel, o título de "a maior história de amor de todos os tempos" é bem questionável. Até tem amor, mas ele é apenas o condutor, um coadjuvante que divide espaço com estrelas como vingança, obssessão, ambição, preconceito e muitos outros sentimentos humanos..

Os comentários estão pela ordem que as adaptações foram lançadas.


1939 (dirigido por William Wyler)
Muito representativo da sua época tem a história bem enxuta e segue bastante o padrão de roteiros de romance da época em Hollywood. Ellen é a narradora e seu Heathcliff é o clássico galã que as mulheres se apaixonam e suas atiitudes são justificadas como apenas o nobre desejo de ficar com sua amada. As escolhas de Catherine são direcionadas mais como "pressão da sociedade" do que como egoísmo, resultando assim numa mulher que "foi presa" por fatores alheios a ela. A fotografia é muito bonita, a ambientação não remete nem um pouco a Inglaterra, mesmo se passado lá também aqui nessa adaptação, e nenhum dos atores possue sotaque. Geraldine Fitzgerald como Isabella se destaca. Concorreu a 8 Oscars e recebeu por fotografia, "O Vento Levou", que foi lançado mo mesmo ano, foi o grande vencedor daquele ano.

1954 (dirigido por Luis Bunuel)
"Escravos do Rancor" coloca a história num contexto bastante latino e isso vai desde o uso de expressões como "Jesus, Maria, José!", passando pelos crucifixos em cima das camas nos quartos e, por fim, no melodrama rasgado que lembra muito as novelas. O filme começa já no retorno de Alejandro (Heathcliff) para sua vingança e precisa passar um bom tempo explicando a natureza da paixão/obsessão dele por Catalina (Catherine) e vice versa. Foca bastante nas disputas amorosas e as nuances maiores dos personagens não são muito exploradas. Em determinado momento Isabel pega o protagonismo do filme e vira a mocinha da história. Alejandro é um Heathcliff mais apagado e Catalina é uma Catherine no estilo "vilãs também amam" onde até uma virada de corpo é um grande acontecimento.

1970 (dirigido por Robert Fuest)
"O Solar dos Ventos Uivantes", título nacional, essa adaptação tem um começo muito promissor, dá bastante espaço pros personagens coadjuvantes mas na reta final se perde um pouco com a necessidade de finalizar a história dos protagonistas. A cena chave onde Heathcliff ouve Cathy dizendo que seria degradante se casar com ele é a que, talvez, tenha a melhor resolução cênica e no roteiro. Coloca Cathy se sacrificando pelo bem maior que é o seu amor e isso muda tudo, ela vira heróina. Heathcliff, por outro lado, aqui, já demonstra sinais de psicopatia logo no início e tudo só vai piorando. A escolha dos atores protagonistas me chamou a atenção por serem figuras mais "estranhas", isso trouxe camadas interessantes para os personagens. A música original é bem bonita e Judy Cornwell (como Nellie), Julian Glover (como Hindley) e Ian Ogilvy (como Edgar) se destacam.

1988 (dirigido por Yoshishige Yoshida)
Essa adaptação é muito interessante e cheia de personalidade. A história é transportada para o Japão não somente por ter sido filmada lá e por ter elenco japonês, é muito evidente que o material original foi remexido para que costumes e tradições fossem inseridos naquele contexto. Na primeira parte Kinu (Catherine) tem maior destaque e o seu amor por Onimaru (Heathcliff) é o combustível que a move para evitar o caminho que ela, como mulher, supostamente deveria seguir. Esse, pra mim, é o grande destaque dessa adaptação: a forma como a submissão feminina naquela sociedade é mostrada. Na segunda parte Onimaru ganha destaque e sua vilania e crimes só vão aumentando. É um homem detestável. O filme tem fotografia e enquadramentos muito bonitos, elenco talentoso e belas locações.

1992 (dirigido por Peter Kosminsky)
Talvez a adaptação mais conhecida de todas, é bem ambiciosa ao retratar um longo período de tempo e uma figura que pode até ser a própria autora Emily Brontë é quem narra a história. O roteiro parece ter uma lista de acontecimentos que precisa ir dando check e essa sensação fica evidente, várias frases que são claramente retiradas do livro ganham um momento de destaque e isso também fica evidente. É bem anos 90 na sua montagem, fotografia, figurinos e caracterização com péssimas extensões de cabelo nos protagonistas na primeira fase e na percepção de que era ok "amarronzar" o Ralph Fiennes. Ele, e seus olhos, são o grande destaque, está muito bem e muito assustador. Heathcliff aqui é vilão com V maiúsculo.


2003 (dirigido por Suri Krishnamma)
Produzido pra TV pela MTV estadunidense, o cenário principal é uma casa com um enorme farol no estado da Califórnia. A história se passa na época em que foi produzido, tem uma pegada "musical" e o clima é praiano. Heathcliff aqui é apenas Heath, vive descamisado, vira astro do rock e seus cabelos loiros quase não nos permite ver seus olhos. É um rapaz bastante possessivo e emocionalmente instável, o que é no mínimo curioso considerando o público alvo, mas condizente com o que era produzido na época para esse mesmo público. Catherine aqui é Cate e perde qualquer profundidade, é apenas a mocinha chata. Katherine Heigl é o destaque do elenco vivendo uma Isabel no estilo mean girl apenas poucos anos antes de ficar conhecida por "Grey's Anatomy". Um "The O.C." piorado, bem piorado...

2009 (dirigido por Coky Giedroyc)
Minissérie para a TV pública estadunidense em dois episódios, essa adaptação, graças a esse formato, consegue desenvolver muito bem acontecimentos importantes da história. Justamente por isso é a que mais grita o erro de escalarem um ator branco para o papel de Heathcliff. Não tem espaços para respiros e a montagem é cena atrás de cena e todas bastante verborrágicas. É uma obra bem televisiva em vários sentidos. A falta de apuro (ou orçamento) técnico é uma pena, elevaria bastante o resultado final. A imagem é lavada e os cenários e figurinos são bem simples. Tom Hardy se destaca no elenco mesmo escolhendo uma interpretação mais óbvia do Heathcliff. Charlotte Riley, infelizmente, não sustenta sua Catherine.

2011 (dirigido por Andrea Arnold)
Essa adaptação é bem interessante e a que melhor desenvolve o desejo de vingança e a virada de chave do Heathcliff. Coincidentemente, é a única onde o ator é negro e que explora essa característica. Concentra-se bastante na fase onde os personagens são crianças e isso tem um peso importante na história. Heathcliff e Cathy, aqui, foram humanizados o máximo possível. Tem cenas desconfortantes envolvendo animais e uma em especial na parte final que é bem angustiante. Kaya Scodelario e James Howson defendem muito bem seus personagens e tem boa química. O visual do filme se destaca com belas locações, arte e uma fotografia muito bonita que, inclusive, ganhou prêmio no festival de Veneza em 2011.


2026 (dirigido por Emerald Fennell)
Visualmente o filme tem muitos pontos positivos, mesmo sentindo que em muitos momentos toda aquela pompa se torne exagerada. Gostei da pequena introdução com os personagens crianças mas muitas coisas me incomodaram principalmente por serem gratuitas. E não estou falando do fator "carnal", até porque essa parte promete muito e entrega bem pouco. Estou dizendo, entre outras coisas, da cena inicial, da insistência por texturas e seus sons, e principalmente, no final, usar o que acorreu na infância dos personagens pra justificar e romantizar uma relação extremamente abusiva e perigosa. O rumo dado para a Isabela achei de um sadismo extremamente desnecessário e a tentativa de fazer Nelly (e todas as funcionárias, aliás) uma vilã e Catherine uma vítima dela um tiro no pé por só evidenciar como a protagonista é desprezível. Jacob Elordi está estranhamente robótico e Margot Robbie está ok mas sua personagem é indefensável. Pegaram personagens que já são difíceis de serem gostáveis e tornaram tudo pior.